Como o novo paradigma da Web 3.0 pode contribuir para os diversos setores da sociedade afetando desde a esfera empresarial até a educacional
Matheus Santos Pavanelli
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A que remete o termo “Web 3.0”? E “Web Semântica”? Soa confuso? Afinal, qual é o significado deles? Como podem afetar nossas vidas cada vez mais conectadas?
Web Semântica é a Web dos significados. Melhor dizendo, é a versão aperfeiçoada da Web que conhecemos. Ela é dotada de ferramentas que permitem aos computadores identificar conceitos e ideias mais próximos do entendimento humano. Ao contrário de recuperar informações por meio de buscas por palavras-chaves, como ainda é feito atualmente na maioria das ferramentas disponíveis na Web, a Web Semântica preza pelo significado do conteúdo. Ela gerencia informações de uma forma semelhante ao ser humano e “entende” o conteúdo, seu sentido e suas conexões com diferentes fontes de dados. Ainda que seja comumente associada como sendo uma forma de inteligência artificial, sua definição está mais próxima dos conceitos usados na área de Banco de Dados, como afirma a W3C® [1], órgão que regulamenta a Web.
Apesar da ideia soar vanguardista, ela já havia sido pensada no final da década de 1990 pelo próprio criador do WWW e da linguagem de marcação HTML, o físico britânico Tim Berners-Lee. Segundo ele, haveria uma época em que a relação computador-computador, e consequentemente a relação usuário-computador, seria muito mais fluente e precisa. Os computadores entenderiam o significado dos conteúdos e seriam capazes de fazer uma análise muito mais adequada e conveniente do que era feito até então.
Umas das grandes motivações que promoveu o crescimento desse tema foi o próprio crescimento e extensão da Web para além dos computadores tradicionais. Na época em que foi criada, o seu intuito era fundamentalmente exibir documentos – qualquer página de conteúdo – ligados entre si de forma manual. Hoje, o que vemos é um enorme campo pelo qual a internet se expandiu. A maior parte dos aparelhos cotidianos possuem acesso à rede, sejam de bolso ou acoplados a outros objetos funcionais. A internet é onipresente. Sendo assim, não é muito difícil notar que a norma regente para o começo da Web não se aplica mais atualmente. Diversas mídias, contextos e necessidades diferentes surgiram, o que nos leva a concluir que é inevitável a criação de uma nova forma de Web.
Atualmente nos encontramos num período de transição dessa tecnologia, ou seja, alguns dos recursos semânticos já foram implementados, entretanto o alicerce da Web ainda está contido no antigo paradigma. Para fazer um paralelo entre cada versão, pode-se afirmar que o primeiro padrão Web, ou Web 1.0, característico da década de 1990, é o modelo estático de apresentação de conteúdo. As páginas representam, exatamente, a visão do criador do site, sem interferência direta do usuário (aquele que acessa a página). Esse padrão funciona como uma vitrine virtual, onde a transmissão da informação é em “mão-única”. Ainda hoje, não é raro encontrar sites que ainda utilizam esse formato. A segunda versão da Web, já no novo milênio, avançou no ponto de personalização da informação por parte do usuário. Este, por sua vez, não é mais um mero consumidor de conteúdo, mas também um provedor. Blogs, vlogs, redes sociais e outras formas de comunicação são conceitos inclusos nesse modelo. Por fim, a Web 3.0, é a Web interativa por excelência. Apesar de ainda estar em desenvolvimento, já é possível acessar alguns recursos e ferramentas dinâmicas que ela pode proporcionar, sem a necessidade do uso de plug-ins externos como Flash® (ver glossário). Além, também, de trazer significativa melhoria nos quesitos usabilidade e acessibilidade, uma vez que tais programas rastreiam as informações do site através dos metadados (ver glossário).

Umas das principais tecnologias que fundamenta esses avanços é o HTML5 (ver glossário). Sua história e criação possui um enredo em parte controverso. O HTML em si havia sido descontinuado pela W3C®, que apostou na junção dele com outra linguagem, o XML, para desenvolver o conceito da semântica. Basicamente, a nova versão da linguagem permite transformar sites em programas. A grande diferença existente entre essa versão e as anteriores é a formalização da separação entre estrutura (HTML), aparência (CSS) e interatividade (JavaScript) e a consequente incorporação de tags semânticas, isto é, tags que indiquem à máquina como interpretar a informação contida nelas. Por exemplo, em vez de se usar <div>, de forma genérica, para separar uma área da interface, pode-se usar <header>, <nav> ou <footer> para indicar que o conteúdo apresentado ali é um cabeçalho, uma área de navegação ou o rodapé do site. A princípio, para o usuário não ocorre mudança de navegação. A vantagem está, por exemplo, no fato de um buscador entender que os elementos do header são mais pertinentes ao conteúdo do que os do footer, ou também na melhoria da acessibilidade. Dessa forma, para um deficiente visual, que navega com auxílios de outras ferramentas, a legibilidade do site é muito facilitada. Outra grande vantagem do uso das novas tags é a facilidade de incorporar elementos multimídia, como áudio e vídeo, com poucos parâmetros para configurar. O que antes exigia do programador especificar diversas características e propriedades referente à mídia, hoje é feito de forma automática e menos burocrática.
Para grandes corporações, o uso de uma estrutura semântica para o tratamento de dados se torna cada vez mais necessário à medida que uma enorme massa de informações precisa ser trabalhada. Gigantes de vários setores como BBC, Pfizer, Renault, JPMorgan e muitas outras corporações já utilizam da capacidade semântica para analisar seus dados e desenvolver aplicações. As vantagens são enormes devido à flexibilidade de estruturas e organização dos bancos de dados [2].

Um excelente exemplo de uso da Web Semântica é o motor de busca WolframAlpha, desenvolvido e mantido pela Wolfram Reseach©. A primeira vista, o WolframAlpha assemelha-se muito ao Google, entretanto, ele guarda uma diferença primordial. Em buscadores convencionais, as respostas são formuladas por meio de um mecanismo de busca baseado em palavras chaves. No WolframAlpha suas respostas são formuladas por meio da uma interpretação do texto digitado pelo usuário, associado a um enorme banco de dados atualizado constantemente. Exemplificando, é possível pesquisar uma cor pelos seus dados RGB ou até mesmo a posição atual do telescópio Hubble, praticamente todo resultado é composto por respostas precisas e até informações complementares[3]. Isso demonstra uma grande capacidade da máquina em entender e abstrair informações do usuário, retornando assim, uma resposta mais efetiva e condizente com a pergunta. Esses e outros outros milhares de exemplos, em sua ideologia, podem revolucionar a maneira como interagimos com os computadores.
Além do contexto discutido, ainda é interessante falar sobre os efeitos dessa tecnologia em outras áreas, como por exemplo, na educação. Isso certamente provocará um imenso avanço na educação em todos os níveis, visto que o conhecimento não são blocos isolados de informação, mas sim uma cadeia de conceitos conectados de forma bastante complexa do ponto de vista organizacional. Um dos grandes desafios deste século é aliar harmoniosamente a quantidade cada vez maior de dados produzidos, alcançando eficácia e inteligibilidade. E a Web Semântica já se mostra – ainda que em processo de desenvolvimento – bastante capaz e preparada nesse sentido.
Glossário
–Metadados – Metadados são, em essência, dados sobre dados. É possível entendê-los como sendo um agregado de pequenas informações referentes a um dado base. Sua utilização inclui possibilitar a ligação entre os dados principais. Tomando como exemplo uma foto, são exemplos de metadados as suas dimensões, resolução, data em que foi tirada e até a localização da cena representada na foto. É importante ressaltar que o conceito de metadado não é restrito ao universo digital, podendo ser aplicado em outras áreas, por exemplo no arquivamento de livros e periódicos numa biblioteca.
–Flash®- Software para desenvolvimento multimídia e conteúdo interativo. É muito utilizado em games, animações e também na Web. A princípio desenvolvido pela Macromedia®, hoje é propriedade da Adobe®.
–HTML5 – Hipertext Markup Language 5. É a quinta versão da linguagem.
Referências
[1] W3C – http://www.w3c.br
[2] HSM Management nº86 – Ano 15 Vol. 3
[3] WolframAlpha – http://www.wolframalpha.com
[4] TED Talks – Linked Data: http://www.ted.com/talks/tim_berners_lee_on_the_next_web